Cenário-circo de homicídio e costume

Corre que acabei de confirmar com o IML. Eles estão indo para lá!”

Normalmente, depois dessas frases, o motora acelera e a gente segue pelas ruas da cidade atrás de mais uma vítima de assassinato em Manaus.

Depois de um grande “pergunta aqui, pergunta de novo, pergunta mais uma vez daquela vizinha ali”, achamos o local.

Bem, achamos – depois de descer uma ladeira e até descer um barranquinho, mas achamos!

homicidio
Foto: Girlene Medeiros

A partir de então o olhar de repórter se torna ainda mais ávido e repara com muita atenção os detalhes ao redor.

Procuro imediatamente saber onde estão as viaturas policiais, porque né? A síndrome de super herói está com os pés no chão por aqui.

Tudo isso para, em seguida, ter uma noção onde está o corpo (às vezes, é em via pública, mas as vezes é dentro de uma casa…).

Meu olho vai logo no corpo. “Quantos tiros? Ou será que foram facadas?”, é o primeiro pensamento que invade minha mente.

Meu olhar passeia pelo cenário, acompanhando a ação dos policiais civis que tentam identificar qualquer vestígio de autoria do crime.

Os peritos criminais então… Muitas vezes, precisam, literalmente, “enfiar o dedo” nos ferimentos para ter certeza se foram dois tiros ou se a bala não transfixou.

Com o tempo, você se acostuma com aquele sangue todo se espalhando pelo chão, às vezes, rede, cama, calçada…

Realmente. Com o tempo, você se acostuma com muita coisa na ronda policial.

A dificuldade de encontrar os locais de crime, o tempo de espera necessário para esperar uma ocorrência ser “fechada”…

As barreiras para se conseguir informações sobre o crime. Nem falo daquelas que podem atrapalhar a investigação, falo das que deveriam ser públicas mais facilmente mesmo.

Você se acostuma a visitar, quase que diariamente, o IML e até já decorou o ramal das polícias Civil e Militar.

Mas tem UMA coisa que não consigo me acostumar:

A presença de crianças em locais pós-crime. É incrível como, mesmo depois de pouco mais de quatro anos fazendo ronda policial, isso ainda me impressiona.

São crianças de, no mínimo, seis anos. Ali, assistindo aquele corpo estendido no chão como se fosse a novidade do dia ou o telejornal do meio-dia ao vivo.

Crianças muitas vezes acompanhadas das mães. Bem perto, tentando tirar fotos e filmar o momento em que a equipe do IML coloca o corpo no camburão.

“Eita, mãe! É fulano, né?”, diz a criança, enquanto a mãe responde: “É sim. Ai Jesus, quanto sangue!”.

Ainda me impressiona como o horror é interessante para tantos.

Enquanto penso que estou ali apenas porque aquele é meu ofício, há aqueles que escolheram estar naquele cenário.

Fico pensando: qual a porcentagem de inocência que ainda há naquela criança?

O horror se torna comum pelo que percebo. E talvez não só para mim quando de ofício.

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